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Cuba: por trás do rum, da salsa e das belas praias

20/04/2011
Capitólio - Havana, Cuba

Capitólio - Havana, Cuba. Foto: Henrique Costa

Abençoada com uma riqueza natural exuberante e repleta de relíquias históricas, a Cuba do rum, da salsa e do povo sorridente vive um bom momento em seu turismo internacional. Apesar da queda de turistas provenientes de países desenvolvidos afetados pela crise mundial, tais como Espanha, Itália e França, a ilha atraiu um maior número de visitantes latino-americanos, totalizando 2,5 milhões de turistas estrangeiros em 2010 (em 2009 foram 2,43 milhões).

Esses números são vigorosamente comemorados pelo Ministério de Turismo de Cuba e pela Oficina Nacional de Estadísticas como um resultado direto da abertura gradual da economia do país e de sua estratégia de promoção internacional, que envolve desde a participação do país nas maiores e mais importantes feiras de turismo do mundo, até a existência de escritórios de turismo em diversos países, inclusive no Brasil.

Com um fraco mercado exportador de bens de consumo (por exemplo, Cuba já importa açúcar do Brasil), o turismo ganha grande importância como alternativa para a entrada de divisas estrangeiras no pais. No entanto, vale a pena discutir até que ponto a atividade turística em Cuba contribui, de fato, para a melhoria da qualidade de vida de sua população. Eis alguns fatos para reflexão:

1) Em Cuba, os turistas não utilizam e não têm acesso (pelo menos em teoria)* aos pesos cubanos (moeda utilizada pelos residentes). Usam os pesos convertibles (CUC), que equivalem ao dólar americano. 1CUC = 25 Pesos Cubanos

2) Somente estabelecimentos devidamente registrados têm permissão para vender produtos e serviços aos turistas (arrendadores de divisa), sempre utilizando CUCs. Quando uma loja está autorizada a atender tanto residentes quanto turistas, há tabelas diferenciadas de preços.

3) Logicamente, o preço para o turistas não é equivalente ao preço destinado aos residentes e isso gera uma situação no mínimo desconfortável para os estrangeiros e também para os cubanos. Por que os cubanos não conseguem ter acesso aos mesmos produtos consumidos pelos turistas e por que, simplesmente por serem turistas, estrangeiros devem pagar um preço mais alto pela maioria dos itens de lojas de conveniência e supermercados?

4) Boas alternativas de hospedagem em Cuba são as casas particulares autorizadas pelo governo. Você paga um preço bem abaixo do praticado pela maioria dos hotéis e tem a oportunidade de conviver diretamente com uma família cubana. Porém, ao invés de ser incentivada pelo governo, parece que não há muito interesse em que esse tipo de iniciativa se desenvolva. Isso, pois, para cada unidade habitacional disponível para aluguel, é gerada uma receita de CUC 400 (até pouco tempo atrás falavam em CUC 300) em impostos para o governo, por mês, independente da taxa de ocupação.

5) Apesar da simpatia e boa vontade do povo cubano (maioria da população está disposta em ajudar), existem muitos aproveitadores, os chamados jineteros. Eles, basicamente,  fornecem informações erradas e tentam prestar algum tipo de serviço com o intuito de arrancar o máximo de proveito do turista (CUCs), ou, pelo menos, um convite para o almoço. O resultado é que em regiões mais freqüentadas por turistas (Havana Vieja e Trinidad foram os casos mais emblemáticos na minha experiência), os cidadãos acabam virando jineteros por profissão.

6) A maioria esmagadora dos estabelecimentos prestadores de serviços turísticos é estatal, apesar do crescimento de pequenas iniciativas particulares autorizadas pelo governo, como é o caso dos paladares – pequenos restaurantes particulares, instalados nas salas, sacadas e garagens das casas. Porém, há uma taxação mínima de 30% sobre a receita e uma limitação ao numero de cadeiras por estabelecimentos.

Esses e outros fatos decorrentes do regime e da economia cubana causam dificuldades para o pleno desenvolvimento da atividade turística e impedem que a população usufrua dos benefícios econômicos gerados pelo ingresso de divisas estrangeiras provenientes do turismo internacional.

Por outro lado, a justificativa do governo cubano para tal concentração das divisas estrangeiras nos cofres públicos é a possibilidade de reinvestimento em obras sociais, de acesso a uma maior parte da população. Dizem, por exemplo, que a renda obtida com a taxação das casas particulares é utilizada para a construção de casas e apartamentos para os casais jovens. Sob essa perspectiva, a forma de distribuição da receita seria mais igualitária, sob a forma de serviços essenciais à população.

O que Cuba tem de bela, cativante e “revolucionária”, tem, certamente, de desigual.

* Para turistas mais experientes e com um pouco de habilidade com o espanhol, não é impossível ter acesso aos pesos cubanos.

Sugiro também os seguintes links:

Primeiras e breves impressões sobre Cuba, por Rogério Tomaz Jr.

Jineterismo e prostituição em Cuba, do jornal Diário de Cuba

Filme publicitário do Ministério de Turismo de Cuba

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